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	<title>Luiz Antonio Simas</title>
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	<description>Luiz Antonio Simas é escritor, professor e historiador, compositor brasileiro e babalaô no culto de Ifá.</description>
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	<title>Luiz Antonio Simas</title>
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		<title>O BRASIL GOSTA DE SAMBA?</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/o-brasil-gosta-de-samba/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 13:35:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Trabalhando por conta própria, na aventura de inventar minha vida fora das formalidades, tenho dado algumas oficinas sobre a história do samba fundamentadas numa impressão que visa produzir um desconforto reflexivo: o processo de transformação do samba carioca – aquele inventado pela turma do Estácio e dinamizado na Mangueira, Oswaldo Cruz, Salgueiro… – em símbolo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Trabalhando por conta própria, na aventura de inventar minha vida fora das formalidades, tenho dado algumas oficinas sobre a história do samba fundamentadas numa impressão que visa produzir um desconforto reflexivo: o processo de transformação do samba carioca – aquele inventado pela turma do Estácio e dinamizado na Mangueira, Oswaldo Cruz, Salgueiro… – em símbolo da identidade nacional brasileira, estruturou-se em cinco bases: expropriação, desafricanização, desmacumbização, domesticação e carnavalização do gênero.</p>
<p>Resumo minhas impressões:</p>
<p>1- No processo de incorporação do samba a uma possível construção identitária feita de cima, tirar o samba das mãos dos pretos que o criaram e amaciá-lo para a indústria fonográfica, atenuando a rítmica macumbada que caracterizava os tambores centro-africanos redefinidos no Brasil, foi estratégia sistemática.</p>
<p>2- Era necessário apagar o fato de que a maior e mais vigorosa invenção cultural da cidade do Rio de Janeiro foi obra de uma turma do Estácio formada por marginais, rufiões, jogadores de ronda, malandros com folha corrida, pequenos trambiqueiros, moços que morreram assassinados, sifilíticos e malucos, batuqueiros das porradas na balança, babalorixás, cambonos, ogãs, trabalhadores informais de viração, etc. A própria docilidade estratégica, afirmativa e protagonista, de Paulo da Portela incomodava este projeto domesticador. Imaginem o que representava a turma do Estácio para o projeto civilizatório de recorte canônico que seduziu, e seduz ainda, segmentos das elites brasileiras?</p>
<p>3- A carnavalização do samba, já domesticado e livre, do ponto de vista da narrativa, do “lado obscuro” dos sambistas, aliou-se a uma suposta alegria brasileira e funcionou nos tempos mais recentes como um elemento estimulador da inclusão pelo consumo de bens ou pelo desejo de consumi-los. A festa do carnaval, mimetizada nos desfiles das “super escolas de samba”, em seu discurso fabular de harmonia e país possível pelo consenso, é aquela que não quer a fresta, propiciadora do inesperado e potencialmente ameaçadora da ordem normativa. Só que, eis o recado dos inquices do Congo e dos ancestrais do batuque, a potência que criou o samba carioca está exatamente neste último aspecto, que muitos dos que se definem como “sambistas” parecem desconsiderar.</p>
<p>Dessas breves reflexões, cabe fazer uma pergunta incomoda: Será que o Brasil gosta mesmo de samba?</p>
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		<title>F(R)ESTEIRO</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/fresteiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 13:30:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gosto de festa. Como me defino? Meu pensamento é festeiro e fresteiro. No meu país a gira de caboclo, as festas de São Jorge e da Penha, procissões, quermesses, rodas de capoeira, bailes, blocos, ranchos, cordões, escolas de samba, Maracanã, foram espaços de invenção da vida no precário e viração da morte em alegria e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table class="paragraph_block block-1" role="presentation" border="0" width="100%" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td class="pad">
<div>
<p>Gosto de festa. Como me defino? Meu pensamento é festeiro e fresteiro. No meu país a gira de caboclo, as festas de São Jorge e da Penha, procissões, quermesses, rodas de capoeira, bailes, blocos, ranchos, cordões, escolas de samba, Maracanã, foram espaços de invenção da vida no precário e viração da morte em alegria e arte.</p>
<p>A festa é espaço de construção de protagonismo das cidadanias negadas. Inventou-se na rua a aldeia roubada nos gabinetes. Disciplinar a rua, ordenar o bloco, domesticar os corpos, sequestrar a alegria e enquadrar a festa foi a estratégia dos senhores do poder na maior parte do tempo.</p>
<p>Do embate entre a tensão criadora e encantada do terreiro e as intenções castradoras dos senhores do território, a cidade é uma disputa que pulsa na flagrante oposição entre um conceito civilizatório elaborado exclusivamente a partir do cânone, temperado hoje pela lógica empresarial e evangelizadora,  e um caldo vigoroso de cultura das ruas forjado na experiência inventiva da superação da escassez e do desencanto.</p>
<p>É aí, na fresta, que o corpo garrincha-se, terreiriza-se, e se forma entre nós uma cultura de festa; não porque a vida é boa, mas exatamente pela razão inversa. Assim nasceu a grande transgressão da macumbação do mundo em alegria.</p>
<p>Festeiros do mundo inteiro, uni-vos!</p>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<table class="divider_block block-2" role="presentation" border="0" width="100%" cellspacing="0" cellpadding="10">
<tbody>
<tr>
<td class="pad">
<div class="alignment" align="center">
<table role="presentation" border="0" width="100%" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td class="divider_inner"></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
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		<title>O PRIMEIRO CADÁVER</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/o-primeiro-cadaver/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 13:29:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História. Minha onda é sair da História para entrar na vida. De toda forma, tenho uma história com o presidente que envolve o primeiro contato de um menino com um defunto. Poucas coisas podem ser mais impactantes na vida de uma criança do que o cadáver inaugural. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table class="paragraph_block block-1" role="presentation" border="0" width="100%" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td class="pad">Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História. Minha onda é sair da História para entrar na vida. De toda forma, tenho uma história com o presidente que envolve o primeiro contato de um menino com um defunto. Poucas coisas podem ser mais impactantes na vida de uma criança do que o cadáver inaugural. É a imagem do defunto primordial que se transformará quase certamente no primeiro fantasma, aquele que guardaremos pelo resto da vidas.</p>
<p>O meu primeiro cadáver &#8211; e meu fantasma definitivo &#8211; foi Getúlio Vargas. Não, eu não era nascido quando o velho se matou, em 24 de agosto de 1954. Minha mãe tinha só nove anos.</p>
<p>Acontece que na minha casa havia uma edição da revista O Cruzeiro sobre o legado de Vargas, lançada em algum aniversário da morte do presidente e guardada como relíquia. Um dia, saído das mamadeiras, folheei a revista e me deparei com a foto que ainda hoje é nítida na minha memória: Getúlio, mortinho da silva, tinha um lenço amarrado que sustentava o maxilar, para evitar aquela boca aberta típica dos defuntos frescos.</p>
<p>O problema é que o laço que amarrava o lenço &#8211; no alto da cabeça &#8211; causava um impressão curiosa, em virtude das pontas jogadas uma para cada lado. Intrigado, perguntei ao meu avô:</p>
<p>&#8211; Quem é?</p>
<p>&#8211; Getúlio Vargas. O maior!</p>
<p>E aí, com a inocência de zagueiro brasileiro enfrentando ataque alemão na Copa do Mundo, indaguei:</p>
<p>&#8211; Por que ele está vestido de coelhinho da Páscoa?</p>
<p>Simplesmente achei que o laço representava as orelhinhas do famoso símbolo pascal.</p>
<p>Meu avô, conterrâneo de Lampião, não tinha entre seus dotes a capacidade de lidar com essas indagações infantis e simplesmente respondeu:</p>
<p>&#8211; Ele tá morto. O lenço é pra evitar que o queixo fique caído. Repara só no detalhe dos algodões no nariz. É pra não sair umas melecas que todo defunto solta.</p>
<p>Nunca me recuperei do impacto.</p>
<p>Ninguém passa incólume pela experiência de descobrir que um coelho da Páscoa pode ser um presunto. Até hoje não consigo esquecer a imagem do corpo do presidente &#8211; e sou incapaz de ver um lenço ou um simples chumaço de algodão sem considerar que foram criados para preparar defuntos.</p>
<p>Fiquei anos com medo do fantasma de Getúlio. Não tinha condições de visitar o Palácio do Catete, com pavor de encontrar o espectro do presidente vagando pelos corredores.</p>
<p>No dia de hoje, aniversário do suicídio, sei que lembrarei daquela foto o tempo inteiro.  Todo ano é assim nessa época.</p>
<p>Uso, para fechar essas mal traçadas, o mote da velha propaganda de sutiã e afirmo com a convicção de um João Batista metendo bronca no deserto: Não é o primeiro amor que define nosso caráter. É do primeiro cadáver que a gente nunca esquece.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
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		<title>SÃO FRANCISCO DE ASSIS</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/sao-francisco-de-assis/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 13:26:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Outubro é o mês da festa de São Francisco de Assis, celebrado no dia 4.  Querem curiosidades sobre ele? Os animais Há na cultura oral do cristianismo inúmeros relatos sobre a relação dele com os animais. Diz-se que em suas peregrinações ele desenvolveu a capacidade de se comunicar com os bichos  chegou a sugerir que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Outubro é o mês da festa de São Francisco de Assis, celebrado no dia 4.  Querem curiosidades sobre ele?</p>
<p>Os animais</p>
<p>Há na cultura oral do cristianismo inúmeros relatos sobre a relação dele com os animais. Diz-se que em suas peregrinações ele desenvolveu a capacidade de se comunicar com os bichos  chegou a sugerir que a igreja desse permissão para que os animais pudessem assistir a missas.</p>
<p>Um dos relatos mais famosos refere-se ao episódio em que Francisco, enquanto caminhava, começou a ser seguido andorinhas que voavam formando uma cruz. Outro episódio conta que ele amansou um lobo, conversando com o bicho, que ameaçava os peregrinos.<br />
Em certa ocasião, um pássaro avisou a Francisco sobre a hora da oração da meia-noite.</p>
<p>Como difusor da tradição de montar presépios na época do Natal, foi Francisco que introduziu na cena da Natividade de Cristo os animais, a partir das figuras do boi e do jumento. A inspiração para isso vem de uma passagem de Isaias (Is,1,3) em que o profeta sentencia: o boi conhece o dono e o jumento conhece a manjedoura do seu proprietário.</p>
<p>O nome</p>
<p>Francisco se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. De família rica, era filho de Pietro Bernardone, um próspero comerciante, e de Pia Bourlemont, descendente de nobres da Provença, no sudeste da França. Acredita-se que foi o pai que apelidou Giovanni, ainda menino, de Francisco (Francesco, o fracesinho). Uns dizem que o apelido deve-se às origens; outros, ao apreço que o garoto demonstrava pela cultura francesa.</p>
<p>O cordão</p>
<p>O uso de um cordão por cima do hábito religioso marrom dos franciscanos começou com o próprio Francisco. Até hoje é costume que os cordões sejam feitos pelos monges, possuindo três nós ou cinco nós. Os de três representam as virtudes da pobreza, da castidade e da penitência. Os de cinco representam as cinco chagas da cruz de Cristo e os estigmas de São Francisco. Segundo a tradição, durante oração no Monte Alverne, Francisco recebeu no próprio corpo as marcas (estigmas) que os pregos fizeram no corpo de Jesus.</p>
<p><strong>Viva São Francisco de Assis!</strong></p>
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		<item>
		<title>IKU, IKU, Ô!</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/iku-iku-o/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 13:20:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(na intenção do mês de finados, um mito iorubá recontado por mim) Os mais velhos contam que Olodumare, o deus maior, um dia deu a Obatalá a tarefa da criação das mulheres e dos homens, para que eles povoassem o Ayê &#8211; esse nosso mundo visível. Não foi um ato de misericórdia ou amor que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>(na intenção do mês de finados, um mito iorubá recontado por mim)</p>
<p>Os mais velhos contam que Olodumare, o deus maior, um dia deu a Obatalá a tarefa da criação das mulheres e dos homens, para que eles povoassem o Ayê &#8211; esse nosso mundo visível. Não foi um ato de misericórdia ou amor que determinou que o ser humano fosse criado; Olodumare fez isso em um momento de vaidade, do qual em algumas ocasiões arrependeu-se amargamente.</p>
<p>Obatalá moldou os humanos a partir de um barro primordial; para isso pediu a autorização de Nanã, a venerável senhora que tomava conta daquele barro. Os seres humanos, depois de moldados, recebiam o emi &#8211; sopro da vida &#8211; e vinham para a terra. Aqui viviam, amavam, geravam novos homens, plantavam, colhiam, se divertiam e cultuavam as divindades.</p>
<p>Aconteceu, porém, que o barro do qual Obatalá moldava os humanos foi acabando. Em breve não haveria a matéria primordial para que novos seres humanos fossem feitos. Os casais não poderiam ter filhos e a terra mergulharia na tristeza trazida pela esterilidade. A questão foi levada a Olodumare.</p>
<p>Ciente do dilema da criação, Olodumare convocou os Orixás para que eles apresentassem uma alternativa para o caso. Como ninguém apresentasse uma solução, e diante do risco da interrupção do processo de criação dos homens, Olodumare determinou que se estabelecesse um ciclo. Depois de certo tempo vivendo no Ayê, os homens deveriam ser desfeitos, retornando à matéria original, para que novos homens pudessem, com parte da matéria restituída, ser moldados.</p>
<p>Resolvido o dilema, restava saber de quem seria a função de tirar dos homens e mulheres o sopro da vida e conduzi-los de volta ao todo primordial &#8211; tarefa necessária para que outros viessem ao mundo.</p>
<p>Obatalá esquivou-se da tarefa. Vários outros Orixás argumentaram que seria extremamente difícil reconduzir os humanos ao barro original, privando-os do convívio com a família, os amigos e a comunidade.</p>
<p>Foi então que Iku, até ali calado, ofereceu-se para cumprir o designo do Deus maior. Olodumare abençoou Iku. A partir daquele momento, com a aquiescência de Olodumare, Iku tornava-se imprescindível para que se mantivesse o ciclo da criação.</p>
<p>Desde então Iku vem todos os dias ao Ayê para escolher os homens e mulheres que devem ser reconduzidos ao Orum. Seus corpos devem ser desfeitos e o sopro vital retirado para que, com aquela matéria, outros homens possam ser feitos &#8211; condição imposta para a renovação da existência. Dizem que, ao ver a restituição das pessoas ao barro, Nanã chora. Suas lágrimas amolecem a matéria-prima e facilitam a tarefa da moldagem de outros viventes.</p>
<p>Iku é, desde então, o único Orixá que tem a honra de baixar na cabeça de todas as pessoas que um dia passaram pelo Ayê. É por isso que no Axêxê, o ritual fúnebre que celebra, prepara e comemora a grande viagem de retorno ao todo primordial, prestam-se homenagens a Iku &#8211; com cantos de júbilo e louvação que, mais que a morte, reafirmam o mistério maior &#8211; a possibilidade de outras e outras vidas.</p>
<p>Assim diziam os mais velhos, que jamais vestiam luto, em sua infinita sapiência.</p>
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		<title>SANTOS REIS: O COMEÇO DO CARNAVAL E A ORIGEM DO BAFO DA ONÇA</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/santos-reis-o-comeco-do-carnaval-e-a-origem-do-bafo-da-onca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2026 19:59:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Minha avó gostava de fazer a simpatia das sementes de romã na festa de Santos Reis, no dia 6 de janeiro, com o argumento de que o babado é tiro e queda contra a pindaíba. A romã aparece em várias culturas como uma fruta capaz de garantir a prosperidade e a fecundidade, em virtude de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Minha avó gostava de fazer a simpatia das sementes de romã na festa de Santos Reis, no dia 6 de janeiro, com o argumento de que o babado é tiro e queda contra a pindaíba. A romã aparece em várias culturas como uma fruta capaz de garantir a prosperidade e a fecundidade, em virtude de sua grande quantidade de sementes. A tradição judaica garante que são 613 sementinhas; mesmo número dos “mitzvotis”, os provérbios sagrados da Torá. O suco de romã é tomado em regiões da Índia como um propiciador da fertilidade feminina. O Brasil herdou de Portugal a tradição de que devemos retirar da romã nove sementes no Dia de Reis, com rogações a Baltazar, Gaspar e Belchior. Três sementes devem ser comidas, três devem ser ofertadas e três devem viver dentro de carteiras onde se leva o dinheiro.</p>
<p>No calendário católico, o Natal marca o encerramento do Advento (as quatro semanas que antecedem a celebração do nascimento de Jesus) e anuncia a Epifania (a manifestação de Cristo aos Reis Magos do Oriente). A nossa tradição do Dia de Reis é ibérica. A festa é muito forte na Espanha e em Portugal, onde grupos de foliões visitam as casas dos devotos com estandartes e instrumentos musicais. Munidos de violas, pandeiros, reco-recos, sanfonas, chocalhos, cavaquinhos e triângulos, os foliões entoam músicas em louvação aos Santos Reis e recebem, em troca, oferendas propiciatórias ao festejo.</p>
<p>Geralmente, as folias formam-se em consequência de promessas feitas e graças alcançadas pela ação dos magos. O pagamento da promessa inclui a obrigação de angariar recursos financeiros para manter uma folia por até sete anos. Além dos músicos e cantores, muitas folias são compostas por palhaços, dançarinos e personagens das tradições locais, transformando-se em autos dramatúrgicos de celebração comunitária.</p>
<p>Os palhaços são personagens que não podem faltar. A tradição diz que a função deles é a de distrair durante a folia, pelas brincadeiras, os soldados de Herodes, impedindo que os milicos encontrem a Sagrada Família, que para escapar da matança dos inocentes se pirulitou para o Egito. Outra versão diz que os palhaços mascarados representam soldados de Herodes que se converteram ao cristianismo. Para fugir do castigo que isso geraria, já que Herodes teria cuspindo vespa contra os convertidos, eles se disfarçam.</p>
<p>Nas festas e nos folguedos populares o que não pode faltar é comida. Veio da Europa a nossa tradição do bolo de Reis, normalmente preparado com frutas cristalizadas. Em algumas regiões de Portugal, o bolo é servido com uma fava escondida. Quem encontra a fava — ou algum outro brinde — deve ser o responsável pelo bolo do ano seguinte. Tradição similar ocorre na Itália, na França (quem acha a fava é coroado rei por um dia) e nos países de colonização francesa. Na Espanha, é hábito a criança colocar um sapato na janela (costume entre nós enraizado no Natal) com alguma oferenda aos Reis. Na manhã seguinte, o sapato amanhece com doces e presentes deixados pelos magos do Oriente.</p>
<p>O Rio de Janeiro, pra quem não sabe, mantém grupos de folias ativos em comunidades como as dos morros Santa Marta, Formiga e Mangueira, e em diversas cidades do interior do estado. Por aqui, para variar, a folia emendou com o carnaval. O Dia de Reis está de certa forma, na origem do Bafo da Onça, instituição das mais importantes na história da cidade.</p>
<p>O Bafo foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos 1950. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria; um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.</p>
<p>Seu Tião tinha ainda o hábito, depois de um período contrito, de começar a tomar umas biritas fortes no dia de Santos Reis. Para ele, a data marcava o fim do Natal e o início das festas de Momo. Os trabalhos só eram encerrados na Quarta-feira de Cinzas. Ocorre que o seu Tião pegava pesado na cana, não gostava de escovar os dentes durante as festividades e acabava ficando com um hálito de carniça. Durante uma das carraspanas, amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveram criar um bloco de carnaval. Todos saíram fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, é evidente, nasceu prontinho.</p>
<p>Das Folias de Reis ao Bafo da Onça é a celebração comunitária da vida que se manifesta. O fuzuê no meio do perrengue, a crença na dádiva, a beleza precária e miúda da manjedoura pobrezinha e de uma birosca no Catumbi, ainda são capazes de afirmar que alguma coisa há de nos salvar da desumanização voraz que nos consome. Viva os Santos Reis do Oriente e Evoé!</p>
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		<item>
		<title>CARNAVAL, ALEGRIA E DIREITOS HUMANOS</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/carnaval-alegria-e-direitos-humanos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2026 19:28:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Brasil é um país marcado por projetos históricos de exclusão, concentração da riqueza, aniquilação material e espiritual de saberes não brancos e esgarçamento do viver em comunidade. Nesse sentido, os folguedos populares são um contraponto ao horror e instâncias possíveis de reconstrução do ser a partir do pertencimento encantado ao comum. Ao longo da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O Brasil é um país marcado por projetos históricos de exclusão, concentração da riqueza, aniquilação material e espiritual de saberes não brancos e esgarçamento do viver em comunidade. Nesse sentido, os folguedos populares são um contraponto ao horror e instâncias possíveis de reconstrução do ser a partir do pertencimento encantado ao comum.</p>
<p>Ao longo da nossa história, festejar foi afrontar o individualismo e a decadência da vida em grupo. Nas festas populares, fortaleceram-se laços contra a diluição comunitária, foram construídos pertencimentos e redes de proteção social e a vida foi afirmada nas frestas do desencanto.</p>
<p>Ao longo da história do Brasil, o Carnaval – em toda a multiplicidade de suas manifestações – constituiu-se como um espaço de celebração coletiva capaz de afrontar o individualismo e a decadência da vida em grupo.</p>
<p>Se o Brasil institucional, na maior parte do tempo, apostou na exclusão e na concentração da riqueza como um projeto de constituição do estado-nação, o povo brasileiro construiu, nas brechas da exclusão, sentidos de mundo manifestos na capacidade de resistir e, mais do que isso, reinventar a existência como experiência de soberania, alegria e liberdade. São estes sentidos que formam o campo simbólico das brasilidades, com nossas festas, cantos, danças, crenças, louvações, comidas, bebidas, brincadeiras, sortilégios etc.</p>
<p>É equivocada, portanto, a percepção de que o Carnaval é uma celebração escapista e alienada, destituída de sentidos mais profundos. A festa não contradiz a luta pela vida. Pelo contrário. No arrepiado das arrelias e na plenitude dos corpos fantasiados que sambam, pulam, rodopiam, desfilam; manifesta-se um dos direitos humanos fundamentais que precisam ser garantidos ao povo do Brasil : o direito à alegria!</p>
<p>Dentre as múltiplas facetas do Carnaval, esta é uma das mais relevantes e ignoradas. É evidente que a festa tem repercussões importantes no campo da economia, do turismo, da geração de emprego e de renda para os que trabalham na folia. Não podemos ignorar, entretanto, a dimensão simbólica implicada no exercício comunitário do folguedo como algo constituinte da experiência mais sensível do ser.</p>
<p>O poeta Hermínio Bello de Carvalho, em um samba em parceria com Paulinho da Viola, escreveu – em homenagem à Estação Primeira de Mangueira – que “a vida não é só isso que se vê; é um pouco mais”. Bebendo na fonte do poeta, afirmamos que dentre os direitos fundamentais das pessoas, está também o de celebrar a vida – mesmo quando é a mortandade que vigia &#8211; nos bailes, blocos, cordões, escolas de samba, fanfarras, clubes de frevo, maracatus, afoxés etc.</p>
<p>Em tempos cada vez mais marcados pelo esgarçamento do viver em comunidade, foram as festas populares que deram, e continuam dando, sentido a muitas vidas. Na costura das mais diversas fantasias, as agulhas e linhas bordam o direito que cada um tem de estar plenamente – de forma alegre e festeira – nas ruas e no mundo.</p>
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		<title>TRÊS FESTAS DE SANTO</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/blog/tres-festas-de-santo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[juliana@cgmaisgestao.com.br]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2026 18:11:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O padroeiro da cidade do Rio de Janeiro é São Sebastião, festejado no dia 20 de janeiro. A festa de santo mais popular, todavia, é a de São Jorge, no dia 23 de abril. A presença de São Jorge nos subúrbios, especialmente em seu perfil de guerreiro que vence as dificuldades, os sufocos e demandas, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O padroeiro da cidade do Rio de Janeiro é São Sebastião, festejado no dia 20 de janeiro. A festa de santo mais popular, todavia, é a de São Jorge, no dia 23 de abril. A presença de São Jorge nos subúrbios, especialmente em seu perfil de guerreiro que vence as dificuldades, os sufocos e demandas, é extremamente forte, caracterizando-se em especial pelo cruzamento que, na Umbanda, amálgama santos católicos a orixás africanos com características percebidas, no imaginário popular, como similares.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A principal igreja dedicada ao cavaleiro na cidade do Rio de Janeiro fica no bairro de Quintino Bocaiúva, na Rua Clarimundo de Melo, a mais movimentada da região. A festa do santo, precedida por uma alvorada anunciada por clarins militares e queima de fogos, é marcada pela fascinante mistura entre o sagrado e o profano. A missa, as quermesses, as rodas de samba, os leilões de prendas, o pagamento de promessas, o mar de gente trajando o vermelho e o branco — as cores do manto do santo, utilizadas nas giras de Umbanda pelos devotos de Ogum — fazem do festejo a mais popular celebração religiosa carioca do século XXI.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos eventos mais impactantes das celebrações suburbanas do santo é a tradicional carreata com a imagem de São Jorge realizada pelo GRES Império Serrano. A imagem sai da quadra da escola, em Madureira, nas primeiras horas da manhã, passa pela paróquia do santo, em Quintino, atravessa bairros próximos, como o do Engenho de Dentro, e retorna ao celeiro dos bambas imperianos no final do dia. Madureira, aliás, é um bairro marcado pela existência do maior mercado popular da cidade, o Mercadão de Madureira, com uma profusão de lojas que vendem artigos religiosos de Umbanda e Candomblé. Ao lado de imagens de exus, malandros e pombagiras, a estátua do guerreiro montado em seu cavalo e matando o dragão é das mais populares e negociadas do local.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São Jorge é o protetor dos apontadores do jogo do bicho — loteria popular das ruas -, está presente em bandeiras de clubes de futebol, protege quadras de escolas de samba, prostíbulos e balcões de botequins, inspira tatuagens, camisas, grafites, toalhas de rosto, pulseiras, medalhas de ouro, cordões e anéis de prata. Trafega pelos trilhos dos trens suburbanos, povoa o imaginário das luas cheias e derrota os perrengues daqueles que matam, diariamente, os dragões cotidianos para sobreviver e festejar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A força que a festa de São Jorge tem hoje encontro similar com o que representou para o Rio de Janeiro, em outros tempos a Festa da Penha.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contam que, no início do século XVII, o português Baltazar de Abreu Cardoso saiu para caçar. Subitamente, apareceu diante dele uma cobra gigantesca. Apavorado, o português apelou para Nossa Senhora da Penha. Feito o apelo, um lagarto botou a peçonhenta para correr. Baltazar ergueu uma ermida no local do milagre e prometeu fazer anualmente uma festança para relembrar o fato. Surgia assim uma das maiores tradições cariocas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Feita a devida referência ao sagrado, é fácil constatar que milagre maior do que o da santa foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no início da República, numa espécie de folia pré-carnavalesca e espaço de exercício da cidadania informal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A República das oligarquias criminalizava a cultura popular. A ordem era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro em padrões europeus, adotando Paris, a capital francesa, como modelo. E tome de derrubar cortiços e criminalizar as referências culturais do povo mais humilde. Neste clima, as manifestações populares — o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo — eram duramente reprimidas, vistas como símbolos do atraso e da barbárie.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas o povo deu o nó em pingo d´água, virou dono da festa e dela fez seu pertencimento. Os capoeiristas cortaram o mato nas rodas de volta ao mundo, as baianas prepararam a comida do santo e os bambas mostraram os sambas que tinham acabado de compor. A festa se transformou, depois do Carnaval, no maior evento popular do Rio de Janeiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os poderosos fizeram de tudo para impedir a festança. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba na Penha. A rapaziada foi lá, zombou da proibição e fez. Havia ordem de prisão para praticantes da capoeira. O berimbau puxou o toque de São Bento Grande e o povo gingou. A baiana temperou o acarajé, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro mostrou que o espaço da civilização da cidade é a rua.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acho, por tudo isso, que a cidade do Rio de Janeiro deveria zelar pelos festejos da Penha. A festa é parte integrante da História carioca. A decadência dos festejos — por uma série de motivos que demandariam inúmeras discussões — é emblemática dos paradoxos de uma cidade que, vez por outra, parece querer negar seus traços culturais mais fecundos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fechando a trinca das festas da fé na rua, é inevitável lembrar das comemorações de São Cosme e São Damião. O dia das crianças no Brasil, 12 de outubro, foi criado em 1924, em projeto de lei proposto pela Câmara Federal e sancionado pelo presidente Arthur Bernardes. No calendário de afetos de muitos brasileiros, todavia, a festa das crianças é a de Cosme e Damião, os médicos anargiros (inimigos do dinheiro, já que não cobravam consultas) martirizados durante a perseguição aos cristãos na antiguidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil de todos os encantamentos, deu-se o encontro entre os santos gêmeos do catolicismo e Ibeji — o orixá dos iorubás que protege as crianças e representa os mistérios das dualidades que se integram sem se anular. A encruzilhada do encontro entre os santos católicos e o orixá africano (visto aqui mais como acréscimo de força vital que como disfarce para permitir o culto) transformou Cosme e Damião nos donos de todos os doces e carurus. Festa de Dois-Dois, conforme o povo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na folia, até Doum apareceu. Entre os iorubás da Nigéria, quando nascem gêmeos, a primeira criança gerada recebe o nome de Taiwo; a segunda é chamada de Kehinde. Idowu é o nome dado à criança que nasce após o parto de gêmeos. Por aqui, o irmão mais novo dos gêmeos africanos virou Doum e passou também a ser cultuado nos fuzuês de Dois-Dois, especialmente nos terreiros de umbanda, como o irmãozinho de Damião e Cosme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A festa de Cosme e Damião, portanto, passou a ser o dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, terreiro batendo, samba de roda, criança buscando doce.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O encontro entre Jorge Guerreiro, a Penha e meninos gêmeos sintetizam, de certo modo, as formas de encantar o mundo em festa no terreiro carioca, em práticas de sacralização do profano e profanação do sagrado tantas vezes perseguidas, mas constituintes de modos de ser mais fraternos da vida nos perrengues da cidade.</span></p>
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		<title>As três estrelas do céu: Cordel para Cosme e Damião</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/livros/as-tres-estrelas-do-ceu-cordel-para-cosme-e-damiao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[estudioteca]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Oct 2025 18:56:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Protetores das crianças e da alegria, Cosme, Damião e Mariazinha celebram a infância neste cordel cheio de doçura. Luiz Antonio Simas, vencedor do Jabuti, apresenta os costumes e a tradição que atravessam gerações e iluminam o imaginário brasileiro. Com a força da cultura popular e a poesia viva do cordel, Luiz Antonio Simas homenageia os [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div id="bookDescription_feature_div" class="celwidget" data-feature-name="bookDescription" data-csa-c-type="widget" data-csa-c-content-id="bookDescription" data-csa-c-slot-id="bookDescription_feature_div" data-csa-c-asin="6585954580" data-csa-c-is-in-initial-active-row="false" data-csa-c-id="a6guur-31ds3q-br41af-8ez27x" data-cel-widget="bookDescription_feature_div">
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<p><span class="a-text-bold">Protetores das crianças e da alegria, Cosme, Damião e Mariazinha celebram a infância neste cordel cheio de doçura. Luiz Antonio Simas, vencedor do Jabuti, apresenta os costumes e a tradição que atravessam gerações e iluminam o imaginário brasileiro.</span></p>
<p>Com a força da cultura popular e a poesia viva do cordel, Luiz Antonio Simas homenageia os santos médicos Cosme e Damião e a pequena Mariazinha em uma celebração da infância, da partilha e dos milagres que nascem do amor.</p>
<p>Casando a astronomia com a força das tradições brasileiras e da poesia, Luiz Antonio Simas apresenta as histórias de Cosme, Damião e Mariazinha enquanto, de maneira lúdica e didática, nos ensina sobre uma doce e poderosa tradição que atravessa gerações e ilumina o imaginário brasileiro.</p>
<p>As belíssimas ilustrações de Camilo Martins completam a obra com suas cores vibrantes e traços bem marcados, criando imagens que encantam leitores de todas as idades.</p>
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<ul class="a-unordered-list a-nostyle a-vertical a-spacing-none detail-bullet-list">
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Editora ‏ : ‎ </span>Reco-reco</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Data da publicação ‏ : ‎ </span>20 outubro 2025</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Edição ‏ : ‎ </span>1ª</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Idioma ‏ : ‎ </span>Português</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Número de páginas ‏ : ‎ </span>32 páginas</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">ISBN-10 ‏ : ‎ </span>6585954580</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">ISBN-13 ‏ : ‎ </span>978-6585954587</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Peso do produto ‏ : ‎ </span>180 g</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Dimensões ‏ : ‎ </span>20.5 x 0.3 x 27.5 cm</span></li>
</ul>
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<p>O post <a href="https://luizantoniosimas.com.br/livros/as-tres-estrelas-do-ceu-cordel-para-cosme-e-damiao/">As três estrelas do céu: Cordel para Cosme e Damião</a> apareceu primeiro em <a href="https://luizantoniosimas.com.br">Luiz Antonio Simas</a>.</p>
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		<title>As sete encruzilhadas da cidade</title>
		<link>https://luizantoniosimas.com.br/livros/as-sete-encruzilhadas-da-cidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz Antonio Simas]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jun 2025 20:07:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A obra mergulha no Rio de Janeiro do final do século XIX, quando a cidade pulsava no encontro das múltiplas culturas africanas e nas encruzilhadas entre saberes, espiritualidades e tecnologias de povos que, embora separados no continente de origem, acabaram por se encontrar aqui. Desse caldeirão urbano emergem sete elementos centrais ― macumba, botequim, samba, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://luizantoniosimas.com.br/livros/as-sete-encruzilhadas-da-cidade/">As sete encruzilhadas da cidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://luizantoniosimas.com.br">Luiz Antonio Simas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A obra mergulha no Rio de Janeiro do final do século XIX, quando a cidade pulsava no encontro das múltiplas culturas africanas e nas encruzilhadas entre saberes, espiritualidades e tecnologias de povos que, embora separados no continente de origem, acabaram por se encontrar aqui. Desse caldeirão urbano emergem sete elementos centrais ― macumba, botequim, samba, futebol, escolas de samba, subúrbios e jogo do bicho ― que resistem e reinventam a cidade nas brechas de um projeto histórico de exclusão.</p>
<p>Luiz Rufino, que assina a orelha da obra, afirma:</p>
<p>“Quem entende das mumunhas das encruzas firma que elas têm sete lados. Aqueles que somente observam não alcançam, mas quem se disponibiliza à travessia toma um gole com o mistério. Encruzilhada é todo e qualquer entroncamento de caminhos. Nas de três rumos reside o fundamento vindo do outro lado do oceano. Nas de quatro cantos se remontam memórias e narrativas de outros tempos e rotas ordinárias. Nosso professor, que é íntimo dos brindes dados na encruza, nos diz que o número 7 condensaria trânsitos e possibilidades entre esse mundo e todos os outros. Para o povo que irá entrar nesse livro, é bom que saibam que na encruza o primeiro caminho é para frente, o segundo para trás, o terceiro para um lado, o quarto para o outro, o quinto para cima, o sexto para baixo e o sétimo é para dentro de si. Toda pessoa que se lança na encruza é também um caminho. Mergulhado até o pescoço nessas águas, ele apresenta o Rio na conta do 7: macumbas, subúrbios, futebol, escolas de samba, botequim, samba e jogo do bicho. Esse riscado em formato de livro define com precisão e beleza o lugar do nosso professor na cidade. Vibrante, gaiato e sagaz, Simas é definitivamente um trabalhador da rua que é fiel devoto de seus encantos.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Ficha técnica</strong></p>
<ul class="a-unordered-list a-nostyle a-vertical a-spacing-none detail-bullet-list">
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Editora ‏ : ‎ </span>Mórula Editorial</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Data da publicação ‏ : ‎ </span>7 junho 2025</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Edição ‏ : ‎ </span>1ª</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Idioma ‏ : ‎ </span>Português</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Número de páginas ‏ : ‎ </span>106 páginas</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">ISBN-10 ‏ : ‎ </span>6561281187</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">ISBN-13 ‏ : ‎ </span>978-6561281188</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Peso do produto ‏ : ‎ </span>140 g</span></li>
<li><span class="a-list-item"><span class="a-text-bold">Dimensões ‏ : ‎ </span>12 x 0.9 x 19 cm</span></li>
</ul>
<p>O post <a href="https://luizantoniosimas.com.br/livros/as-sete-encruzilhadas-da-cidade/">As sete encruzilhadas da cidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://luizantoniosimas.com.br">Luiz Antonio Simas</a>.</p>
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