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Gosto de festa. Como me defino? Meu pensamento é festeiro e fresteiro. No meu país a gira de caboclo, as festas de São Jorge e da Penha, procissões, quermesses, rodas de capoeira, bailes, blocos, ranchos, cordões, escolas de samba, Maracanã, foram espaços de invenção da vida no precário e viração da morte em alegria e arte. A festa é espaço de construção de protagonismo das cidadanias negadas. Inventou-se na rua a aldeia roubada nos gabinetes. Disciplinar a rua, ordenar o bloco, domesticar os corpos, sequestrar a alegria e enquadrar a festa foi a estratégia dos senhores do poder na maior parte do tempo. Do embate entre a tensão criadora e encantada do terreiro e as intenções castradoras dos senhores do território, a cidade é uma disputa que pulsa na flagrante oposição entre um conceito civilizatório elaborado exclusivamente a partir do cânone, temperado hoje pela lógica empresarial e evangelizadora, e um caldo vigoroso de cultura das ruas forjado na experiência inventiva da superação da escassez e do desencanto. É aí, na fresta, que o corpo garrincha-se, terreiriza-se, e se forma entre nós uma cultura de festa; não porque a vida é boa, mas exatamente pela razão inversa. Assim nasceu a grande transgressão da macumbação do mundo em alegria. Festeiros do mundo inteiro, uni-vos! |
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